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Swami Paramananda: o rebelde do Espírito

  • Foto do escritor: Claudio Moura Neto
    Claudio Moura Neto
  • 3 de mai.
  • 4 min de leitura

ESPIRITUALIDADE ORIENTAL NO OCIDENTE

Swami Paramananda: o rebelde do Espírito

Da Bengala colonial à Califórnia — a história do monge que ousou ordenar mulheres e foi excomunhado por isso


Em 1906, um jovem monge de 22 anos desembarcou em Nova York vindo de Calcutá. Trazia consigo apenas o hábito ocre, as palavras do seu mestre e uma convicção inquebrantável: que a sabedoria do Vedanta não pertencia apenas aos homens.


As raízes: Bengal, Ramakrishna e o chamado


Suresh Chandra Guhathakurta nasceu em 5 de fevereiro de 1884 na aldeia de Banaripara, no distrito de Barisal — hoje Bangladesh. Era filho de uma família bengali progressista, cujo pai era defensor da educação feminina, uma herança que o jovem Suresh carregaria pela vida toda. Aos nove anos, perdeu a mãe para o câncer. A dor dessa perda o lançou numa busca interior que nunca cessaria.

Na biblioteca do pai, encontrou os escritos sobre Sri Ramakrishna — o místico de Dakshineswar que ensinava que todos os caminhos levam a Deus. Em 1900, com apenas 16 anos, Suresh fugiu de casa e apresentou-se ao Ramakrishna Math em Belur, às margens do Ganges. Ali, ingressou na ordem monástica e recebeu o nome pelo qual a história o conheceria: Swami Paramananda, "o bem-aventurado da suprema paz".

"Deixe que os outros falem da fraternidade dos homens. Eu proclamo a fraternidade de Deus — e isso inclui a mulher."

— Swami Paramananda


Vivekananda e a missão para o Ocidente


Tudo começa doze anos antes de Paramananda cruzar o Atlântico. Em 11 de setembro de 1893, o mundo ouviu pela primeira vez as palavras "Sisters and brothers of America!" quando Swami Vivekananda subiu ao palco do Parlamento das Religiões do Mundo em Chicago. Seu mestre espiritual era o próprio Sri Ramakrishna. Sua voz, seu intelecto e sua presença abalaram a plateia de religiosos ocidentais e colocaram o hinduísmo no mapa espiritual do Ocidente.

Vivekananda fundou a primeira Vedanta Society em Nova York em 1894 e, na sua segunda visita aos EUA, estabeleceu centros na Califórnia. Antes de partir definitivamente, deixou seus discípulos monásticos encarregados de manter e expandir esse trabalho. Paramananda era o mais jovem entre eles, e um dos mais brilhantes.

Em 1906, ainda sob o impacto da herança de Vivekananda, Paramananda chegou a Nova York para auxiliar na Vedanta Society. Três anos depois, fundou seu próprio centro em Boston. Sua reputação cresceu rapidamente: era um orador cativante, um poeta sensível e, acima de tudo, alguém que vivia o que pregava.

· · ·

La Crescenta: um ashrama nas montanhas da Califórnia


Em 1923, Paramananda fundou aquilo que seria seu projeto mais ousado: o Ananda Ashrama — "o retiro da bem-aventurança" — nas encostas das Montanhas San Gabriel, em La Crescenta, Califórnia. Uma propriedade de 120 acres de cânions, jardins e trilhas de pedra, a mais de 600 metros de altitude. Em 1928, inaugurou ali o Viswamandir — Templo do Espírito Universal — dedicado às grandes religiões do mundo. Sobre a porta de entrada, as palavras gravadas em pedra: "A verdade é uma."

O ashrama não era apenas um espaço de meditação. Era uma comunidade viva, administrada principalmente por mulheres, onde monjas e leigos conviviam e estudavam o Vedanta lado a lado. Era algo sem precedente no mundo religioso americano da época.


A luta: ordenar mulheres e enfrentar a excomunhão


A posição de Paramananda sobre as mulheres era clara desde o início — e radical para os padrões da ordem que o formou. Ele ordenou Sister Devamata (1867–1942), uma americana, para ensinar o Vedanta publicamente: ela se tornou a primeira mulher americana a ocupar esse papel. Depois, em 1926, trouxe da Índia uma jovem chamada Charushila Devi, que mais tarde adotaria o nome espiritual de Srimata Gayatri Devi. Paramananda a designou como sua sucessora.

A Missão Ramakrishna, sediada em Belur Math, não aceitou. A ordem-mãe insistia em enviar swamis masculinos para assumir a liderança dos centros de Paramananda. Ele recusou. Seus centros recusaram. O resultado foi inevitável: a Missão Ramakrishna excomungou o Ananda Ashrama.

"Sua ruptura com a ordem-mãe foi o preço que ele pagou por acreditar que o espírito não tem gênero."

— Sara Ann Levinsky, biógrafa

Paramananda morreu em 1940, sem ver a resolução desse conflito. Mas sua comunidade sobreviveu. Por 55 anos, Gayatri Devi liderou o Ananda Ashrama com sabedoria e firmeza, exatamente como ele previra. Quando ela faleceu em 1995, a Dra. Susan Schrager — conhecida como Reverend Mother Sudha Puri — assumiu o comando. O Ananda Ashrama existe até hoje, em La Crescenta, completamente independente da Missão Ramakrishna, liderado por mulheres, exatamente como Paramananda quis.


O legado além da controvérsia


Paramananda foi também um escritor prolífico — traduziu o Bhagavad Gita e as Upanishads para o inglês, escreveu poesia em duas línguas e fundou em 1909 o Message of the East, o primeiro periódico Vedanta publicado nos EUA, que circulou por 55 anos. Ele cruzou os EUA, a Europa e a Ásia durante três décadas, levando o Vedanta a audiências que nunca tinham ouvido falar de meditação ou filosofia indiana.

Sua história é, no fundo, a história de uma tensão universal: entre a instituição que nos forma e a consciência que nos transforma. Paramananda escolheu a consciência. E a Califórnia — aberta, contraditória, sempre à beira de alguma fronteira — foi o lugar perfeito para esse encontro entre a sabedoria milenar da Índia e a ousadia do Novo Mundo.

Fontes: Wikipedia (Swami Paramananda, Vedanta Society), Encyclopedia of Hinduism, Ananda Ashrama Historical Marker (HMDB), Sara Ann Levinsky — A Bridge of Dreams (1984)

 
 
 

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